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title: "Finanças Comportamentais — Robert Shiller na Yale"
author: "Robert Shiller · Yale Open Courses"
description: "Quero falar hoje sobre finanças comportamentais, ou sobre psicologia em finanças. É um interesse de longa data meu — estou envolvido com isso há mais de 20 anos. Finanças comportamentais, ou economia..."
source: "https://adhenawer.net/posts/pt_br/financas-comportamentais-robert-shiller-yale.html"
lang: pt-BR
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TL;DR · principais pontos

1. Quero falar hoje sobre finanças comportamentais, ou sobre psicologia em finanças.

## INTRODUÇÃO — FINANÇAS COMPORTAMENTAIS 0:00

Quero falar hoje sobre finanças comportamentais, ou sobre psicologia em finanças. É um interesse de longa data meu — estou envolvido com isso há mais de 20 anos. Finanças comportamentais, ou economia comportamental de forma mais ampla, é uma espécie de revolução que ocorreu em finanças e economia nos últimos 20 ou 30 anos. Ela permanece de certa forma controversa.

## ADAM SMITH E O DESEJO POR MERECIMENTO 2:18

Começo lembrando que Adam Smith, o pai da economia, escreveu dois grandes livros. Um é “A Riqueza das Nações” (1776), mas antes disso, em 1759, escreveu “A Teoria dos Sentimentos Morais” — um livro sobre psicologia e o que motiva as pessoas. Smith enfatizou que as pessoas querem mais do que riqueza material. Elas querem ser admiradas.

Mas Smith foi além: ele disse que pessoas maduras fazem uma transição do desejo por elogios para o desejo por merecimento dos elogios. “Quero saber que sou o tipo de pessoa que seria elogiada, e não preciso necessariamente receber o elogio.” É essa tendência que, segundo Smith, faz uma economia funcionar.

O exemplo de Smith são os matemáticos — quase todos obscuros, o público não sabe quem são, não conseguiriam explicar o que fazem, e não parecem se importar. Porque são movidos pelo merecimento, não pela fama.

A profissão financeira, apesar de todas as coisas estranhas que acontecem, é realmente dominada por pessoas que alcançaram esse desejo por merecimento.

## TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL 5:56

Nem todos atingem esse estado maduro que Adam Smith descreve, e isso é uma das complexidades da sociedade humana. Segundo o DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), 3% da população masculina mundial tem Transtorno de Personalidade Antissocial (APD), e 1% da feminina.

Características do APD: falta de remorso, mentiras frequentes, falta de empatia, charme superficial, emoções rasas, senso distorcido de si mesmo, busca constante por novas sensações. Uma definição simples: é um idiota.

Em um estudo feito em presídios usando os padrões do DSM-IV, descobriram que 40% dos prisioneiros tinham APD. A neurociência também encontrou diferenças no córtex pré-frontal correlacionadas com APD.

## MANIPULAÇÃO E O SISTEMA DE LIVRE MERCADO 10:39

As pessoas são manipuláveis — infelizmente é verdade. E vivemos em um mundo onde é difícil evitar completamente manipular as pessoas, porque temos um sistema de livre mercado que incentiva a competição.

O exemplo mais simples: colocar preço de $9,99 em vez de $10 — pricing points em marketing. Todo mundo faz. É manipulativo, mas é relativamente inofensivo.

Instituições financeiras frequentemente são manipulativas nesse sentido. É similar a um político — se quer ser eleito, não pode dizer exatamente o que acredita. Precisa ajustar suas opiniões à opinião pública. Mas pode ter um propósito moral por trás de tudo isso.

## TEORIA DA PERSPECTIVA (PROSPECT THEORY) 16:40

O elemento mais famoso da economia comportamental é a Prospect Theory, inventada por Daniel Kahneman e Amos Tversky. Em termos simples, tem duas partes: uma função de valor e uma função de ponderação.

A função de valor mostra que não pesamos ganhos e perdas linearmente. No quadrante positivo (ganhos), há valor marginal decrescente — a diferença entre ganhar $100 e $200 parece maior que entre $1.100 e $1.200. Mas o mais importante: no quadrante negativo (perdas), a curva é mais íngreme. Perdas doem mais do que ganhos equivalentes agradam. Isso é chamado de aversão à perda.

A função de ponderação mostra que não processamos probabilidades corretamente. Superestimamos probabilidades muito pequenas (é por isso que compramos bilhetes de loteria) e subestimamos probabilidades altas.

## AVERSÃO À PERDA NO MERCADO DE AÇÕES 20:44

A Prospect Theory sugere que as pessoas deveriam odiar o mercado de ações — porque com sua alta volatilidade diária, se você acompanha todos os dias, experimenta perdas quase tão frequentemente quanto ganhos, e as perdas doem mais. Mas se olhar retornos anuais ou de longo prazo, o mercado quase sempre sobe.

Shlomo Benartzi e Richard Thaler escreveram um artigo famoso sobre “aversão míope à perda” argumentando que as pessoas perdem dinheiro porque olham para o mercado com muita frequência. Se olhasse uma vez por ano, veria quase só ganhos.

## EXCESSO DE CONFIANÇA 29:28

Um dos vieses mais documentados é o excesso de confiança. Shiller faz um experimento ao vivo com a turma: pede intervalos de confiança de 90% para três perguntas (população mundial, massa da Terra, número de idiomas no mundo).

Os resultados mostram que muito menos de 90% dos alunos acertam — tipicamente 80% para a pergunta mais fácil e apenas 5-10% para as mais difíceis. Isso demonstra que as pessoas sistematicamente subestimam sua incerteza.

Por que somos tão excessivamente confiantes? Porque temos a sensação de que entendemos o mundo mais do que realmente entendemos. O mundo é infinitamente complexo, há muitas perspectivas diferentes que poderíamos considerar, mas tendemos a gravitar para a primeira que vem à mente.

O excesso de confiança se estende aos seus amigos — tendemos a achar que nossos amigos são gênios. E se estende às figuras de autoridade — tendemos a achar que o presidente do banco central é um gênio, mas apenas o do nosso país.

## PENSAMENTO MÁGICO E QUASE-MÁGICO 35:57

Pensamento mágico é a crença de que seus pensamentos podem influenciar eventos fisicamente. Em finanças, aparece quando investidores acreditam que pensar positivamente sobre uma ação vai fazê-la subir. Psicólogos chamam de “pensamento quase-mágico” porque as pessoas sabem racionalmente que não funciona, mas agem como se funcionasse.

Experimentos mostram isso: se alguém aposta em uma moeda e já foi lançada mas o resultado está coberto, a pessoa aposta menos do que se a moeda ainda não foi lançada — mesmo que racionalmente não faça diferença. Há uma sensação de que “posso influenciar o resultado se ainda não aconteceu.”

## ANCORAGEM E O EFEITO DE ENQUADRAMENTO 40:38

Ancoragem é quando uma informação inicial irrelevante influencia suas estimativas. Se alguém gira uma roda da fortuna e sai 10, e depois pergunta qual porcentagem dos países africanos está na ONU, a resposta média é 25%. Se a roda para em 65, a resposta média é 45%. A roda é completamente aleatória, mas ancora o pensamento.

No mercado de ações, a ancoragem acontece quando investidores se prendem ao preço que pagaram por uma ação e se recusam a vender por menos, mesmo quando os fundamentos mudaram. Também aparece nos preços redondos — níveis como Dow 10.000 funcionam como âncoras psicológicas.

## REPRESENTATIVIDADE E A "LEI DOS PEQUENOS NÚMEROS" 57:16

As pessoas tendem a julgar por similaridade superficial em vez de probabilidade real. Se um padrão parece familiar, assumem que é real. Isso leva à “lei dos pequenos números” — tomar conclusões de amostras muito pequenas.

No mercado financeiro, isso aparece quando investidores veem um fundo que teve três anos bons e assumem que o gestor é genial. Na realidade, com milhares de fundos, alguns vão ter três anos bons por puro acaso.

## COMPORTAMENTO DE MANADA E CASCATAS DE INFORMAÇÃO 1:05:37

O comportamento de manada nos mercados pode ser racional em certo sentido. Se você não sabe nada e vê muitas pessoas fazendo algo, é racional inferir que elas sabem algo que você não sabe. Isso cria cascatas de informação onde cada pessoa adiciona pouca informação nova e simplesmente segue a multidão.

Experimentos mostram que mesmo quando as pessoas têm informação privada que contradiz o comportamento do grupo, frequentemente ignoram sua própria informação e seguem o grupo.

## BOLHAS ESPECULATIVAS E A REGULAÇÃO 1:09:35

Bolhas especulativas são períodos em que os preços dos ativos sobem muito acima de seu valor fundamental, alimentadas por feedback positivo: preços sobem, mais pessoas compram, preços sobem mais. Isso cria uma espiral que eventualmente colapsa.

A regulação existe para proteger as pessoas desses excessos e das manipulações, mas não é a regulação que faz o sistema funcionar primariamente. Como Shiller cita Janet Yellen: “Não é primariamente a regulação. É a integridade das pessoas que faz o sistema econômico funcionar tão bem quanto funciona.”

A aula enfatiza ambos os lados: falhas humanas e pessoas que exploram essas falhas, mas também um sistema que, de alguma forma, impede que isso se torne o fator dominante nos mercados.